II Seminário de Etnodesenvolvimento: “Este seminário deveria se repetir em outras universidades brasileiras”, afirmou o palestrante convidado da UFRJ, Antonio C. de Souza Lima.


Durante os dias 27 e 28 de fevereiro aconteceu o “II Seminário Etnodesenvolvimento: Formação Universitária e Pratica Profissional para Povos e Comunidades Tradicionais”, realizado pela Faculdade de Etnodiversidade da UFPA/Campus Altamira, com apoio do CNPQ, LACED, PDRS Xingu, UFRJ e Laboratório de Arqueologia Rio Xingu.

O evento acadêmico teve como principais objetivos promover a troca de experiências entre os discentes dos Cursos de Etnodesenvolvimento e Educação do Campo; propiciar a divulgação sobre o tema à comunidade acadêmica da UFPA e, ainda, contribuir para a interação com entidades governamentais e ONGs, a exemplo do representante indígena kaingang, Edimar A. Fernandes da Associação dos Povos Indígenas Estudantes na UFPA, com sede em Belém, que veio para incentivar a organização dos segmentos indígenas, quilombolas e demais participantes.

Para o antropólogo e pesquisador Antônio Carlos de Souza Lima, professor do Departamento de Antropologia do Museu Nacional (foto) este seminário é essencial para a integração dos alunos e para uma conscientização das universidades onde, a formação de elites, como tem sido feita, precisa mudar porque no Brasil de hoje participam todos estes segmentos populacionais, que precisam trocar experiências e levar para o Estado seus saberes e conteúdos e, ao mesmo tempo, aprender o funcionamento do Estado para transformá-lo. O Curso de Etnodesenvolvimento é pioneiro no Brasil pelo seu papel de integração entre múltiplas populações que compõem e expressam a sociodiversidade brasileira e que precisam ter lugar nas instituições públicas de ensino superior, disse o professor Antonio Carlos, que também coordena o Laboratório de Pesquisas em Etnicidade, Cultura e Desenvolvimento, na UFRJ e, desde 2003, tem trabalhado em cursos de especialização para formação de gestores em etnodesenvolvimento e projetos para fomento à presença indígena no ensino superior.

O auditório Central do Campus I, com capacidade para aproximadamente cem pessoas, lotou e a movimentação pelos corredores da universidade demostrava o clima acalorado das discussões e opiniões sobre os temas em debate. Os discentes que apresentaram suas experiências na Mesa 2 foram Maria Helena A. Silva, representante do Movimento Negro; Eliane Moreira Santos, do Movimento Atingidos por Barragens (MAB); José Ivanildo, extrativista; Ronaldo Barbosa, ribeirinho; Manoel Carvalho, agricultor familiar; Elianete Guimarães, quilombola e Liliane da Cunha Chipaia, indígena.

ALUNOS APRESENTAM SEUS RELATOS

Liliane Chipaia, aluna da primeira turma (2010) contou sua história e o início dos trabalhos na educação escolar indígena (1999), na aldeia Tukamã do povo Chipaia, depois na TI Trincheira Bacajá e, posteriormente, com os Assurini. Ela se destaca por ser uma liderança que questionou a imposição da obrigatoriedade de 4 horas em sala de aula para alunos indígenas, visto que estes povos têm processos próprios de aprendizagem que extrapolam a sala de aula. Foi também mobilizadora para criação do Curso de Etnodesenvolvimento. Para Liliane, o Curso fortaleceu-a de confiança e motivação para reivindicar procedimentos de participação indígena na sociedade e, dentre os avanços alcançados, citou a formação de 50 professores no magistério indígena e a construção de material didático, a partir dos povos indígenas, recentemente anunciado.

Emocionando a plateia durante seu depoimento Elianete de Sá Guimarães, nascida no município de Salvaterra no Marajó, apresentou a aplicabilidade dos conhecimentos adquiridos por ela e seus sete colegas que atuam na educação no Marajó, sendo aplaudida ao relatar uma das conquistas obtidas que alteraram os procedimentos do Sistema de Nucleação das escolas de Salvaterra, garantindo aos quilombolas uma educação diferenciada.  Com o apoio e intervenção da Secretária do Conselho de Educação de Belém (PA), conseguiu que Escolas Quilombolas maiores se tornem Escolas Pólo e Escolas Quilombolas menores, se tornem Anexos, diferentemente do sistema que havia sido proposto pela secretaria de educação em 2013.

TEMÁTICAS DO SEMINÁRIO

Os quatro temas do Seminário foram: (1)“Etnodesenvolvimento: desafios institucionais e trajetórias institucionais, tendo como palestrantes a professora Jane Beltrão (PPGA/UFPA) e Paula Lacerda (UERJ/Laced) e a profa. Francilene Parente (FACETNO/UFPA) como debatedora; (2)“Nós Estudantes, o que vivenciamos do Curso de Etnodesenvolvimento”  teve relatos de discentes das turmas 2010 e 2013;(3) “Educação universitária para povos e comunidades tradicionais: experiências compartilhadas”, teve como palestrantes o prof. doutor Antônio Carlos de Souza Lima (UFRJ/Museu Nacional/Laced); Antonio Dari (Fac.Intercultural/UFGD); Edimar Fernandes da Associação dos Povos Indígenas Estudantes na UFPA e, como debatedor, o prof. Assis Oliveira  (FACETNO/UFPA); e (4)“Avaliação da inserção de povos e Comunidades Tradicionais na Educação universitária e no Curso de Etnodesenvolvimento” com os palestrantes representantes de ONG e movimentos sociais da região, e como debatedor, o professor indígena William César Lopes Domingues

 

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